O Cenário das Ciências Humanas e a Necessidade de Reinvenção na Era da Inteligência Artificial
As Ciências Humanas constituem a base fundamental para a compreensão das interações sociais, da produção cultural e do desenvolvimento do conhecimento subjetivo. Presentes na rotina de toda a população global, essas disciplinas sustentam-se em pilares como a Filosofia, que analisa o homem e seu meio; a Comunicação, focada nos fluxos de informação; e a Arte, que examina a expressão criativa. Diferentemente das Ciências Exatas, que buscam resultados precisos baseados em fórmulas matemáticas, ou das Biológicas, que investigam as leis da natureza, as Humanas são intrinsecamente interpretativas e subjetivas.
No cenário educacional brasileiro, a formação nesta área ocorre majoritariamente por meio de bacharelados, licenciaturas e cursos tecnológicos, acessíveis via Enem ou vestibulares institucionais. A grade curricular dessas graduações exige uma robusta capacidade de leitura e interpretação de texto, visando o desenvolvimento do senso crítico. O perfil do estudante, invariavelmente, passa pelo interesse em observar a sociedade, compreender comportamentos e analisar a história, derrubando estereótipos de que a área é restrita a determinados grupos. Qualquer indivíduo com disposição analítica pode ingressar nesse campo.
Mercado de trabalho e remuneração
A amplitude profissional das Ciências Humanas é vasta, estendendo-se desde carreiras tradicionais, como Direito, Jornalismo e Psicologia, até novas demandas do mercado tecnológico, como UX (User Experience) e CX (Customer Experience). Embora exista a preocupação recorrente com a remuneração, há setores que oferecem salários competitivos. Áreas como Direito, Administração e Marketing destacam-se financeiramente, com cargos de gerência em Recursos Humanos, procuradoria e advocacia sênior figurando entre os mais bem pagos.
Contudo, a visão tradicional de que o diploma universitário é um passaporte automático para a segurança financeira enfrenta turbulências. O mercado de trabalho recente tem sido hostil com recém-graduados, impulsionado pelas rápidas mudanças tecnológicas e pela incerteza sobre o impacto da Inteligência Artificial na economia. As empresas, muitas vezes, não sabem exatamente o que seus novos funcionários precisam saber para ter sucesso, o que coloca em xeque a estrutura atual do ensino superior.
A valorização das habilidades duráveis
Paradoxalmente, essa incerteza torna o ensino superior mais útil do que nunca, desde que as instituições estejam dispostas a uma reestruturação profunda. Universidades não resolverão o problema apenas contratando mais conselheiros de carreira; a solução reside na revisão da missão de ensino para o século XXI. O foco deve migrar para o ensino de “habilidades duráveis” (durable skills).
Uma habilidade é considerada durável quando pode ser aplicada em diversos contextos e resiste às mudanças tecnológicas. Aprender uma linguagem de programação específica, por exemplo, é valioso, mas se a indústria mudar o padrão ou se a IA passar a escrever o código, essa competência perde valor. Por outro lado, a capacidade de caracterizar um problema, engajar-se no pensamento sistêmico e comunicar soluções é perene. Graduados em áreas humanísticas, muitas vezes, desenvolvem essas competências implicitamente, o que explica por que podem ter dificuldades iniciais de colocação, mas tendem a obter sucesso a longo prazo. O desafio atual é ensinar essas habilidades de forma sistemática e explícita, permitindo que os alunos articulem claramente o que aprenderam.
Avaliação autêntica e competências
Para que essa transformação seja efetiva, o modelo de avaliação também precisa evoluir. O registro principal da vida acadêmica de um estudante, o histórico escolar, é frequentemente uma lista de nomes de cursos e notas que dizem muito pouco sobre o que a pessoa realmente consegue fazer. Notas e letras no topo de uma página são avaliações limitadas de desempenho.
A alternativa reside na “avaliação autêntica”, onde cada tarefa está diretamente ligada aos resultados que o curso pretende desenvolver. O feedback deve focar na proficiência atual do aluno em relação a uma habilidade específica, utilizando rubricas claras. Em vez de focar apenas em transcrições de notas, o ensino superior deve caminhar para o rastreamento de competências. Isso cria uma linguagem comum entre empregadores, corpo docente e estudantes, permitindo que o mercado entenda exatamente o potencial dos graduados e que os alunos sejam estratégicos na construção de suas carreiras em um mundo onde a automação é uma realidade crescente.