Da Geologia à Arquitetura: Uma imersão na ciência dos vulcões e o uso turístico de crateras extintas

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O estudo da Terra e de suas transformações geológicas ganha novos contornos quando teoria e observação de campo se encontram. Recentemente, a China inaugurou um complexo que exemplifica essa união: o Volcano In Visitor Center. Localizado na borda sul da Estepe de Xilingol, o projeto arquitetônico não apenas atrai turistas, mas funciona como um laboratório vivo dentro de uma cratera extinta formada no Pleistoceno, há cerca de 150 mil anos.

Para estudantes e entusiastas das geociências, entender a relevância dessa construção exige primeiro um mergulho nos processos internos do nosso planeta. Afinal, como essas estruturas colossais se formam e o que determina se um vulcão será uma montanha adormecida ou uma força destrutiva?

A gênese do magma e a física da erupção

A formação de um vulcão começa muito antes de qualquer sinal visível na superfície. Segundo o professor doutor Gaston Eduardo Enrich Rojas, do departamento de mineralogia e geotectônica da Universidade de São Paulo (USP), a chave para compreender o vulcanismo está na origem do magma. Nas profundezas da Terra, especificamente na zona de transição entre a crosta e o manto, as condições extremas de temperatura e pressão fazem com que as rochas entrem em fusão, criando um líquido incandescente.

O movimento desse magma é regido por princípios físicos de densidade. Por ser menos denso que as rochas ao redor, o material tende a subir. O professor Rojas explica que esse processo pode ter dois desfechos distintos:

  1. Intrusão: O magma fica alojado em profundidade e se resfria lentamente, cristalizando-se e formando rochas como o granito.

  2. Extrusão: O magma rompe a crosta terrestre, transformando-se em lava e consolidando a formação de um vulcão.

Quando o magma atinge a superfície, sua temperatura gira em torno de 1.200°C. A dinâmica da erupção — se será um espetáculo explosivo ou um derrame lento — depende da composição química do material, especificamente da concentração de sílica e gases.

Magmas ricos em sílica possuem alta viscosidade. Essa “grossura” dificulta a liberação de gases, aumentando a pressão interna até gerar explosões violentas. Por outro lado, magmas com menos sílica são mais fluidos e menos viscosos, resultando em derrames de lava que podem percorrer o terreno a velocidades de até 80 km/h.

Classificação e morfologia vulcânica

Nem todo vulcão possui a forma cônica clássica que vemos em desenhos. A morfologia dessas estruturas varia de acordo com seu histórico de atividade, que pode ser rastreado por até 10 mil anos. Didaticamente, podemos classificar os vulcões em cinco tipos principais:

  • Estratovulcões: Estruturas cônicas imponentes, formadas por camadas de lava e cinzas, caracterizadas por alta atividade.

  • Vulcões-escudo: Possuem base larga e encostas suaves, resultado de lavas muito quentes e fluidas expelidas em grande quantidade.

  • Cones de escórias: São os menores tipos de vulcões, formados por fragmentos de lava solidificada expelidos em pouca quantidade.

  • Caldeiras ressurgentes: Representam as maiores estruturas vulcânicas, com depressões gigantescas que variam de 15 a 100 km².

  • Vulcões submarinos: Fissuras na crosta oceânica que permitem a saída de magma embaixo da água.

Um estudo de caso na Estepe de Xilingol

A teoria geológica se materializa de forma impressionante no norte da China. O Baiyinkulun Steppe and Volcano Tourism Resort abriga cerca de 108 vulcões em uma área de ecossistema diversificado. Foi nesse cenário que o escritório PLAT ASIA concluiu, no final de 2025, o centro de visitantes mencionado anteriormente.

A relevância educacional do edifício reside em sua integração com o meio. O projeto foi desenhado inspirando-se na topografia local, utilizando curvas em vez de arestas geométricas para mimetizar a paisagem natural. A construção é composta por três volumes principais que utilizam vidro, metal e, de forma simbólica, pedras vulcânicas da própria região.

Além de sua função turística, o local serve como ponto de disseminação de conhecimento sobre a geologia da área. A estrutura foi planejada para resistir aos ventos fortes e à neve intensa, utilizando envidraçamento panorâmico que permite a observação segura da caldeira extinta. É um exemplo prático de como a arquitetura pode mediar a relação entre o ser humano e as forças geológicas que moldaram a Terra ao longo de milênios.