A Encruzilhada da Educação: O Rigor do Provão Paulista e o Canto da Sereia da IA
Nesta quarta e quinta-feira, o estado de São Paulo dá o pontapé inicial em uma nova realidade para mais de 1,2 milhão de alunos do Ensino Médio. O Provão Paulista estreia como o novo vestibular unificado para as instituições públicas de ensino superior, e a premissa é clara: avaliar a bagagem do estudante de forma seriada, desde o primeiro ano. Com pouco mais de 15 mil vagas em jogo para o próximo ano letivo, o recado das secretarias de educação é que o processo de aprendizado importa tanto quanto a linha de chegada. Afinal, para conseguir disputar a vaga de fato, o candidato vai precisar provar sua constância e ter prestado todas as edições do exame ao longo dos três anos de sua formação.
A Anatomia do Esforço Cognitivo
A estrutura da prova não dá muita margem para atalhos acadêmicos. Estamos falando de um caderno de 90 questões de múltipla escolha que varre as quatro áreas do conhecimento do currículo básico, dividido em dois dias de verdadeira maratona. O primeiro dia joga o peso nas Linguagens — com vinte questões de português e quatro de inglês — e nas Ciências da Natureza, exigindo domínio em física, química e biologia, com oito questões cada. O segundo dia foca pesado no currículo básico de Matemática, cobrando 20 questões, e nas Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, destrinchando história, geografia, sociologia e filosofia.
Para quem está no terceiro ano, o sarrafo sobe com a exigência de uma redação dissertativa. Segundo a própria Seduc-SP, a ideia é ir muito além do decoreba: a prova vai cobrar interpretação profunda de texto e contextualização feroz. É uma avaliação que demanda tempo, foco e muita leitura analítica. O resultado sai pelo site da Secretaria, que organiza três chamadas unificadas, deixando as próprias faculdades a cargo das regras burocráticas de matrícula.
A Dissonância nas Salas de Aula
É justamente diante do nível de exigência e resiliência cobrado por exames tradicionais como o Provão que bate uma dissonância cognitiva brutal quando olhamos para as tendências das salas de aula modernas. O vestibular cobra leitura profunda e articulação própria de ideias, mas o ecossistema escolar parece cada vez mais focado em terceirizar o pensamento.
Historicamente, a educação tem a péssima mania de tratar escolas como laboratórios de testes e alunos como cobaias. Não estamos voando às cegas no campo da pedagogia; a ciência do cérebro avançou muito e sabemos bem o que funciona. Mesmo assim, deixamos ideias duvidosas ganharem tração. Já vimos isso: nos anos 1970, derrubaram paredes para criar “salas abertas” que viraram um caos; depois, inventaram métodos de alfabetização que esnobavam a fonética tradicional e prejudicaram a leitura de muita gente. Entupimos as salas com telas, liberamos os smartphones e agora assistimos incrédulos ao vício digital dos adolescentes. Sem contar as disputas ideológicas que invadem o currículo ou o erro incalculável de fechar escolas por mais de um ano durante a pandemia, vendendo a ilusão de que o ensino remoto seria um tapa-buraco suficiente.
O Paradoxo da Eficiência
Mas todos esses tropeços do passado podem acabar parecendo fichinha perto do custo que a nossa atual obsessão com a Inteligência Artificial vai cobrar. O que se vê hoje, do ensino básico ao superior, é uma epidemia de estudantes terceirizando as etapas mais críticas da aprendizagem para os chatbots. A molecada não lê mais um livro inteiro; joga no robô para mastigar um resumo. Em vez de quebrar a cabeça fazendo brainstorming para um projeto, a IA vomita as ideias prontas. Na hora de escrever, editar e reescrever — o trabalho sujo e vital de lapidar o próprio pensamento —, eles deixam a máquina fazer o rascunho e dar o polimento final.
A IA faz essas tarefas mais rápido? Óbvio que sim. E é exatamente por isso que sua adoção indiscriminada é tão perigosa. Aprender raramente é sobre gerar um produto final em tempo recorde. O valor está no processo lento, árduo e frustrante de chegar lá. Para um educador de verdade, o texto que o aluno entrega vale bem menos do que as semanas que ele passou caçando fontes, cruzando dados e testando argumentos. O objetivo de estar na escola não é apenas acertar a alternativa na folha de respostas, mas construir a capacidade de esmiuçar um texto denso ou tentar diferentes abordagens até a fórmula matemática fazer sentido.
No mundo real, quase nenhum adulto vai ser parado na rua para comparar a tragédia de Antígona com a de Édipo Rei. Ninguém vai te cobrar a diferença exata entre as visões de gravidade de Newton e Einstein, ou exigir o cálculo de um desvio padrão no meio de uma reunião comercial. A vida adulta exige outras coisas: avaliar afirmações conflitantes, ter o couro grosso para lidar com problemas cabeludos, entender o peso das taxas de juros no próprio bolso, resolver dilemas morais e ter jogo de cintura para aplicar lições antigas em cenários inéditos.
A escola é o campo de treinamento para essas habilidades e para o caráter necessário à vida em sociedade. Tirar do jovem a chance de praticar e desenvolver essa musculatura cognitiva, embalando essa privação com o rótulo chique de “inovação” ou “progresso tecnológico”, é atrofiar uma geração inteira. Exames massivos como o Provão Paulista ainda tentam, à sua maneira, medir essa resistência acumulada. O que fica no ar é a suspeita de que, fora dos dias de prova, estamos tirando das novas gerações até mesmo a capacidade de saber como se esforçar.